A Mulher Que Resolve Tudo, Mas Não Ousa Pedir Nada

By Eden Antonio

Quando o Medo de Falhar é Maior Que o Desejo de Vencer

Teresa chegava todos os dias às 7h30 da manhã. Meia hora antes de todos. Não porque lhe pedissem, mas porque precisava daquele silêncio para organizar não apenas a sua agenda, mas a de três diretores, dois gerentes e frequentemente, a do próprio CEO. No papel, ela era secretária executiva. Na prática, ela era o coração operacional da empresa.

Todos sabiam. Quando surgiam os problemas impossíveis, aqueles que faziam os gestores olharem uns para os outros sem saber por onde começar… era o nome da Teresa que se ouvia pelos corredores. “Chama a Teresa. Ela resolve.” E ela resolvia. Mas sempre resolvia mesmo.

Negociações complicadas com fornecedores internacionais? Teresa encontrava a solução em três idiomas diferentes. Crise de orçamento que ameaçava cancelar o projeto do ano? Teresa reorganizava as prioridades e encontrava recursos onde ninguém via. Conflito entre departamentos que paralisava decisões estratégicas? Teresa mediava com uma diplomacia que faria inveja a embaixadores.

Mas quando o cargo de Administradora Regional ficou vago… aquele cargo que todos sabiam que tinha de ser dela porque estava escrito na mente de todos os colegas porem Teresa não se candidatou. Quando o CEO perguntou casualmente se ela não tinha interesse, ela sorriu educadamente e disse que estava bem onde estava. Um dia sua melhor amiga no trabalho a confrontou sobre isso, a Teresa desviou o assunto.

O Peso Invisível do Medo

A verdade que a Teresa carregava era pesada demais para compartilhar, ela tinha medo. Um medo de vencer paralisante, visceral, que crescia em seu peito toda vez que ela pensava em dar aquele passo. Não era medo do trabalho, ela já fazia 80% daquilo informalmente. Era medo de algo mais profundo, mais cruel.

Medo de ser vista. Medo de ser melhor. Ela acostumou-se a estar em segundo plano, a servir e nunca a liderar…

Enquanto secretária, ela podia ser brilhante nos bastidores. Podia resolver, criar, transformar, ela fazia tudo isso sem estar sob os holofotes. Se algo desse errado, a responsabilidade era dos diretores. Se tudo desse certo, o mérito também. E isso, de forma estranha e dolorosa, era confortável.

Como administradora, não haveria onde se esconder. Suas decisões teriam seu nome. Os seus erros seriam seus erros. O seu sucesso seria inegável, mas também as suas falhas seriam visíveis. E Teresa, filha de uma mãe que sempre dizia “não chame atenção“, “seja humilde“, “mulher não deve se impor“, carregava décadas de condicionamento que sussurravam: você não foi feita para liderar, você foi feita para servir.

Há uma crueldade específica nesse tipo de medo. Ele não vem de fora, vem de dentro. É o medo que se veste de humildade, que se disfarça de contentamento, que se esconde atrás de frases como “eu não preciso de cargo para ser feliz” ou “não sou ambiciosa”. Mas por baixo dessas palavras aceitáveis socialmente, há uma verdade sufocada: eu não acredito que mereço, acho que não é para mim

A Mesa Farta e o Prato Vazio

Deus prepara uma mesa farta para nós. Os nossos talentos, a nossa inteligência, nossa capacidade, tudo isso está ali, oferecido, disponível. Mas cabe a nós nos levantarmos e colocarmos no nosso prato o que já nos pertence. Teresa estava sentada à mesa, olhando para o banquete, mas comendo apenas as migalhas que caíam.

A empresa sabia do seu valor. Os colegas reconheciam sua competência. Até os concorrentes, quando conseguiam roubá-la em alguma negociação, comentavam entre si: “Aquela secretária deles é mais afiada que qualquer diretor que já conheci.” Todos a viam como alguem grande… excepto ela propria, a Teresa.

Não. Isso não é verdade. Teresa via. Ela sabia. Mas ver e acreditar são coisas totalmente diferentes. Ver e agir são mundos completamente distintos.

Ela via a sua competência, mas acreditava que era sorte. Via os seus resultados, mas acreditava que qualquer um faria o mesmo. Via o respeito nos olhos dos outros, mas acreditava que era apenas simpatia. A mente humana tem uma capacidade assustadora de distorcer a realidade quando o medo está no controle.

O Dia Que Tudo Mudou (Quase)

Foi numa Terça-feira comum que tudo quase mudou. A empresa estava enfrentar a sua maior crise em dez anos. Um cliente estratégico, responsável por 30% do facturamento, ameaçava romper o contrato. As razões eram complexas atrasos no pagamento, documentos acumulados, problemas de qualidade, falta de comunicação. Três reuniões de emergência haviam falhado. O cliente estava irredutível.

O CEO, visivelmente exausto, reuniu a diretoria. “Não sei mais o que fazer”, admitiu algo que Teresa nunca tinha ouvido dele dizer. Os directores se entreolharam, sem respostas. Foi quando alguém disse, quase como último recurso: “E se a Teresa tentasse?”

Teresa foi chamada. Em 48 horas, ela não apenas salvou o contrato, mas renegociou termos melhores. Como? Ela fez o que sempre fazia: escutou verdadeiramente, identificou o problema real (que não era o que todos pensavam), construiu uma ponte de confiança e apresentou uma solução que servia a ambos os lados. Gestão estratégica de alto nível disfarçada de “só fazendo meu trabalho”.

O CEO a chamou no escritório dele. “Teresa, você acabou de salvar esta empresa. Você sabe disso, não sabe?” Ela sorriu, desconfortável com o elogio. “Eu quero que você seja nossa nova Administradora Regional. Eu não estou a perguntar se a Teresa quer. Estou a informar que vai ser, só precisa aceitar oficialmente.”

Era o momento. A proposta da vida dela. Servida numa bandeja de prata. E o que a Teresa sentiu não foi alegria, foi pânico.

“Posso pensar sobre isso?”, ela pediu, com voz trêmula. O CEO franziu a testa, confuso, mas assentiu.

A Conversa Que Ela Não Teve

Teresa saiu daquele escritório e foi directo para o W.C. Trancou-se lá e chorou. Não de alegria, não de alívio, mas de terror puro. Todas as vozes que ela tinha mantido em silencio dentro dela por anos gritavam ao mesmo tempo:

“tu vais falhar na frente de todos.” “Eles vão descobrir que tu não é tão boa como pensam.” “Tu vais decepcionar quem confia em ti.” “É melhor ser uma secretária excepcional do que uma administradora medíocre.” “Quem você pensa que é?”

A última voz era a mais cruel porque era a dela mesma.

Naquela noite, a Teresa não dormiu. Ela passou horas imaginando todos os cenários de fracasso. Via-se tomando decisões erradas, perdendo clientes, decepcionando a equipe, sendo demitida com vergonha. Cada imagem mental era vívida, dolorosa, quase real.

O que ela não conseguia imaginar…

E isso é revelador… eram os dias de sucesso. Sua mente, treinada no medo, simplesmente não conseguia visualizar uma versão de si mesma triunfante naquela posição. Era como se existisse um bloqueio mental, uma parede invisível entre quem ela era e quem ela poderia ser.

Na manhã seguinte, a Teresa voltou ao escritório do CEO. Ele sorriu, esperançoso. “E então?”

“Eu agradeço profundamente pela confiança”, Teresa começou, com voz firme mas coração partido, “mas acho que não é o momento certo para mim. Eu estou muito confortável na minha posição actual e sinto que posso contribuir mais onde estou.”

O CEO ficou em silêncio por um longo momento. Então disse algo que a Teresa nunca esqueceria: “Teresa, eu respeito sua decisão. Mas preciso que você saiba de uma coisa: quando você recusa seu próprio talento, você não está apenas se limitando. Está limitando todos que poderiam se beneficiar do que você tem para oferecer. E isso, minha senhora, é o verdadeiro desperdício.

Ela saiu daquele escritório com um aperto no peito que não a deixava por meses.

O Preço da Segurança Falsa

Nos meses seguintes, a Teresa continuou a fazer o que sempre fazia resolver, criar, transformar. Mas algo tinha mudado. Havia uma amargura sutil em cada problema que ela resolvia, porque agora ela sabia, estava resolver problemas de administrador sem ter o cargo, o salário, ou o reconhecimento oficial de administrador.

E pior, ela estava resolver problemas que o novo administrador, um homem menos competente, porem mais confiante e não conseguia resolver. Ela o treinava discretamente, corrigia seus erros nos bastidores, salvava as suas apresentações. E ele recebia os aplausos, ele brilhava.

Isso não é uma história sobre injustiça externa. É uma história sobre injustiça interna… a injustiça que cometemos contra nós mesmos quando escolhemos o medo em vez da fé.

Teresa tinha escolhido a segurança. Ou pelo menos o que ela pensava ser a segurança. Mas não há nada seguro em viver abaixo do seu potencial. Não há conforto real em ser invisível quando você nasceu para brilhar. A segurança que o medo oferece é uma mentira sofisticada é a segurança da prisão, onde você está protegido de riscos externos, mas completamente impedido de viver verdadeiramente.

A Revolta Necessária

Foi num domingo à noite, deitada na cama, que a Teresa finalmente teve uma conversa consigo mesma que ela vinha adiando. Não foi gentil, nem bonita… Foi brutal e necessária.

“Porquê é que tu tens medo de falhar Teresa?”, ela perguntou em voz alta no quarto vazio. “Porquê é que tu tens tanto medo de não ser capaz? Então seja incapaz e aprenda. Porquê é que precisas da dos outros? Eles já julgam você agora, julgam sua covardice, sua pequenez, sua recusa em ser quem você é.”

Foi nesse momento que os gêmeos nasceram dentro dela: o desejo de vencer e a revolta das decepções. O desejo sussurrava promessas de realização, de propósito cumprido, de viver à altura do seu chamado. A revolta gritava contra todos os “nãos” que ela tinha aceito não da empresa, não dos outros, mas dela mesma.

Essa mistura de sentimentos era desconfortável, quase insuportável. Mas era combustível puro. Pela primeira vez em anos, Teresa sentiu algo além do medo, sentiu fúria. Fúria santa. Fúria contra as mentiras que tinha acreditado. Fúria contra a pequenez que tinha escolhido. Fúria contra a própria versão dela que desperdiçava talentos por medo.

A Proposta da Sua Vida (De Verdade Dessa Vez)

Na Segunda-feira de manhã, a Teresa chegou às 7h30 como sempre. Mas dessa vez, não organizou agendas. Ela escreveu. Escreveu uma proposta completa, detalhada, visionária – não para pedir o cargo de Administradora (esse já tinha sido oferecido e recusado), mas para propor algo maior.

Ela propôs uma reestruturação completa do departamento, identificando gargalos que ninguém tinha percebido, sugerindo soluções que ninguém tinha imaginado, projetando um crescimento que ninguém achava possível. E no final, ela escreveu:

“Eu sei que recusei esta oportunidade antes. Foi por medo. Não vou mentir sobre isso. Mas o medo é um conselheiro terrível. Ele me fez pequena quando Deus me fez grande. Ele me fez secretária quando eu nasci para liderar. Não porque secretária seja menos – mas porque não é o meu chamado.

Venho através desta proposta não apenas pedir uma nova chance, mas oferecer algo diferente: a versão de mim que parou de se esconder. A versão que vai falhar, com certeza, mas que vai aprender e crescer. A versão que vai ser vista, julgada, criticada – mas também a versão que vai transformar.

O meu talento não é só meu. É um presente de DEUS que o mundo precisa. E eu finalmente entendi que guardá-lo por medo não é humildade é roubo.”

Ela respirou fundo e marcou reunião com o CEO.

O Que Acontece Quando Finalmente Nos Levantamos

A reunião não foi fácil. O CEO, ainda ressentido pela recusa anterior, estava cético. “Por que agora, Teresa? O que mudou?”

“Eu mudei”, ela respondeu, com uma honestidade crua. “Passei meses assistindo alguém menos capaz fazer mal o trabalho que eu poderia fazer bem. Passei meses sentindo a amargura de esconder meu talento. E percebi algo: o custo de não tentar é maior que o custo de falhar.”

Ela apresentou a proposta. O CEO leu em silêncio. Quando terminou, olhou para ela com uma expressão que Teresa não conseguia decifrar.

“Isso aqui”, ele disse apontando para o documento, “é a visão mais clara e estratégica que já vi para esta empresa. E eu passei os últimos seis meses esperando que alguém da diretoria tivesse essa visão.”

Ele fez uma pausa.

“O cargo é seu. Mas quero que entenda uma coisa: agora não há para onde correr. Você será vista. Você será julgada. Você vai falhar às vezes. E isso tudo é parte de liderar.”

“Eu sei”, Teresa respondeu. E pela primeira vez, ela realmente sabia. E estava pronta.

A Lição Que Teresa Aprendeu (E Que Precisamos Aprender)

A história de Teresa não termina com um final perfeito onde tudo dá certo. Ela assumiu o cargo. Nos primeiros três meses, cometeu erros significativos. Teve noites de insônia questionando se tinha feito a escolha certa. Enfrentou resistência de colegas que não aceitavam bem sua ascensão. Teve momentos de querer desistir.

Mas também teve vitórias. Implementou mudanças que aumentaram a eficiência em 35%. Desenvolveu uma equipe que passou a operar com autonomia e excelência. Negociou contratos que expandiram a empresa para dois novos mercados. E mais importante: tornou-se ela mesma.

O que Teresa aprendeu é o que toda mulher que se esconde no medo precisa aprender:

Ser feliz é obrigatório. E não há felicidade real em viver pequeno quando você nasceu grande. Não há paz em se esconder quando você foi chamada para liderar. Não há contentamento em recusar seu talento quando ele é um presente divino que o mundo precisa.

A mentalidade define a realidade. Teresa passou anos acreditando que não era capaz, e essa crença criou uma realidade onde ela realmente não era, não porque faltasse competência, mas porque faltava coragem. Quando a mentalidade mudou, a realidade seguiu.

Deus é amor, mas também é fogo consumidor. Ele nos ama demais para nos deixar confortáveis na mediocridade. Aquele desconforto que Teresa sentiu por meses? Era o fogo divino queimando as mentiras, consumindo o medo, refinando o caráter. Doloroso, mas necessário.

Precisamos de tempo, conhecimento e maestria sobre nós mesmos. O cargo não fez Teresa capaz, ela já era capaz. Mas aceitar o cargo exigiu que ela dominasse seus medos, seus padrões de pensamento, sua tendência de se diminuir. Essa é a verdadeira maestria: não sobre tarefas, mas sobre si mesma.

O Convite Final

Esta é uma história sobre Teresa. Mas talvez seja também sobre você.

Quantas vezes você resolveu o problema impossível, mas deixou outro levar o crédito? Quantas vezes você teve a solução perfeita, mas não teve coragem de apresentá-la? Quantas vezes você foi mais capaz que seus superiores, mas aceitou permanecer inferior por medo?

A mesa está preparada. O convite está feito. O cargo – seja ele qual for em sua vida, está esperando. A única pergunta que resta é: você vai continuar olhando para o banquete de longe, ou vai finalmente se levantar e colocar no seu prato o que Deus já preparou para você?

O medo vai sussurrar mil razões para esperar. A insegurança vai listar todas as formas possíveis de falhar. A opinião internalizada dos outros vai questionar se você merece.

Mas há uma voz mais profunda, mais verdadeira, a voz do seu chamado. E ela está dizendo que você não nasceu para servir migalhas quando há um banquete preparado. Você não nasceu para resolver problemas de outros quando você deveria estar liderando. Você não nasceu para brilhar nos bastidores quando foi feita para liderar sob os holofotes.

Teresa finalmente entendeu. E agora ela não apenas trabalha, ela lidera. Não apenas resolve, ela transforma. Não apenas sobrevive, ela vive.

A pergunta é: quando será sua vez?

Porque o mundo não precisa de mais uma pessoa competente escondida. O mundo precisa de líderes corajosos que ousam falhar, ousam ser vistos, ousam ocupar o espaço que lhes pertence.

A proposta da sua vida não virá de fora. Ela virá de dentro, no momento em que você decidir que o medo não define mais suas escolhas.

E quando esse momento chegar, você descobrirá algo que Teresa descobriu, o medo de falhar é real, mas o arrependimento de nunca ter tentado é insuportável.

Escolha sabiamente.

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